Colhendo bons frutos
23/08/2006 -
Cíntia Cruz
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| Renato é o idealizador do projeto; Flávia se identificou com aulas de cidadania |
Na Zona Oeste do Rio, a capacitação em técnicas de jardinagem tem transformado a história de muitos adolescentes. A idéia surgiu com Renato Gomes, coordenador do projeto "Plantando o Futuro", da Viva Rio. Desde o ano passado, a iniciativa forma jardineiros e viveiristas na região, que tem um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do município.
Quando o Instituto Camargo Corrêa abriu seleção para um de seus programas sociais, "Profissão Futuro", o objetivo era financiar por um ano iniciativas que tivessem como objetivo a capacitação profissional. A idéia da equipe da Ong foi a única do Rio de Janeiro a ser aprovada. No final de 2005, o projeto apresentou uma proposta de continuidade e foram refinanciados por mais dois semestres.
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| Juliana(D) coordenadora do Instituto |
Para a coordenadora do instituto, Juliana Di Thomazo, as propostas são contempladas de acordo com sua estrutura para propiciar a entrada no mercado. "Temos a preocupação de ver se a idéia contém as estratégias para inserir os atendidos no mundo do trabalho. O projeto não é entendido só como o curso, mas todo o desenvolvimento profissional é analisado".
Com o financiamento são possíveis manter duas turmas, que totalizam mais de 50 pessoas: uma no horário da manhã e outra à tarde, de segunda à sexta-feira. Os estudantes, que têm entre 16 e 21 anos, recebem, ainda, lanche, ajuda de custo de R$ 60 e todos os insumos necessários para a produção. As aulas práticas, que eram em Pedra de Guaratiba na primeira fase do projeto, acontecem, este ano, num viveiro, no espaço do projeto Estação Futuro, em Santa Cruz. Lá, os participantes dividem-se em grupos e cada um tem uma área onde deve plantar suas mudas.
Instrutor das aulas práticas, Heleno Teixeira, conta que em quatro meses o grupo fez uma grande produção na região. "Os viveiros ficaram cheios de plantas. Nós só limpamos e preparamos o terreno, mas eles é que ajudaram. O serviço é bem dividido em função do número de alunos".
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| Deisiene quer cursar Engenharia Florestal |
Além da mudança de local, o curso sofreu outra alteração: a criação de um nível avançado para os alunos do primeiro ano do projeto. No módulo básico, os adolescentes estudam as disciplinas Cidadania e Direitos Humanos, Viveiro, Reflorestamento e Recuperação de Áreas Degradadas, Jardinagem e Horticultura. O conteúdo do núcleo mais adiantado é Produção Vegetal e Gestão de Pequenos Negócios.
A inovação dentro do assunto de Produção Vegetal foi a plantação de brotos comestíveis, como por exemplo, feijão, alfafa, própolis e trevo. Renato tem realizado contatos com alguns restaurantes de comida natural para negociar a venda dos produtos. A idéia é que esse cultivo possa trazer algum lucro. "Estamos tentando produzir alimentos para que eles possam gerar trabalho e renda, tanto como empregados quanto por conta própria", assinala.
Dentro da disciplina Gestão de Pequenos Negócios, os veteranos construíram, na frente da instalação do curso, um quiosque de plantas ornamentais, que eles mesmo produziram e cultivaram. Os preços das mudas variam de R$1 até R$ 15. "O quiosque funciona como uma escola de pequenos negócios para gerenciar", orgulha-se Renato. Ele afirma que o objetivo para o núcleo avançado é que, até o final das aulas, a turma elabore um plano de negócios. "Se o plano for viável, vai ser encaminhado ao Viva Cred para que possa ser financiado".
Interferência social
Todas as disciplinas dos módulos são relacionadas com a questão ambiental. A professora de Cidadania e coordenadora psico-pedagógica, Elaine Caetano, afirma que o tema não pode ser tratado isoladamente. "No curso passado fazíamos separado, mas descobrimos a transversalidade da questão da educação ambiental, de como ela transpassa todas as disciplinas".
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| Bianca aprendeu a valorizar a natureza |
As aulas de Elaine são dinâmicas e enriquecidas com debates de temas atuais. Ela procura integrar a teoria e a ação humana na sociedade."Busco trazer para as aulas a realidade atual. Trabalho muito com recorte de jornal, filmes, debate, trabalho de grupo e painéis". A questão social atrai o interesse de alunos e funcionários. Heleno Teixeira acredita que projetos como este deveriam existir mais, pois conscientizam e dão uma ocupação aos jovens:
"Hoje muitos jovens que ficavam na rua sem ter o que fazer já conseguem ser chamados para trabalhos temporários na área de jardinagem. Além disso, aqueles que destruíam a natureza vão se conscientizando. Por exemplo, eles aprendem como tirar as flores sem ofender a planta".
Flávia Gomes conta que se identificou com as aulas de Cidadania, pois a partir delas pode rever muitos conceitos. A aluna, que sonha em ser jornalista ambiental, acredita que a questão da conscientização é fundamental. "Fica difícil preservar o que não conheço. Acho que a conscientização é muito importante e a partir do momento que somos conscientizados podemos passar isso adiante".
Planos e iniciativas
Alguns alunos do núcleo avançado estão com muitas expectativas para o futuro do projeto. "Plantando o Futuro" despertou neles o desejo de que permaneçam as atividades e até a vontade de fazer curso superior na área. Deisiene Almeida veio de Vitória, Espírito Santo, há quatro anos e mora no sítio onde seu pai trabalha em Campo Grande. A jovem trabalha na produção de brotos e conta que pretende cursar Engenharia Florestal. "Acho interessante porque recupera um pouco do meio ambiente, pretendo tentar o vestibular ano que vem". Enquanto isso, a jovem treina o que aprendeu na horta do local onde mora.
Bianca Fontes revela que descobriu o gosto pelas vegetação através do projeto. "Comecei a conhecer mais sobre as plantas, dar mais valor e ter conhecimento sobre a natureza e como valorizar isso". Ela cuida do quiosque na parte da manhã.A menina e mais quatro amigos contruíram o quiosque com materiais doados, entre eles, madeira de eucalipto."Tínhamos que ter coisas novas para o Módulo Avançado. Surgiu a idéia de montar um quiosque porque produzíamos muitas plantas que ficavam por aí. Com este espaço podemos vender o que foi cultivado", informa.
A estudante do 1º ano do Ensino Médio, que pretende estudar Paisagismo, afirma que o meio ambiente deve ser valorizado. "Devemos valorizar não porque é bonitinho, mas porque tem serventia para nós mesmos." Essa serventia, a menina utiliza na prática. Bianca leva as folhas de plantas medicinais para casa e a mãe faz chá:
"Meus pais gostam porque quando minha mãe fica doente, eu falo que tem um chá que aprendi no curso com a folha tal". A jovem que já montou em casa um jardim, está fazendo outro, mas com plantas medicinais. "No frio, as pessoas lá de casa costumam ficar resfriadas, então, economizamos dinheiro com remédio", garante.
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