A cápsula da mudança
26/12/2003 -
Julia Duque Estrada
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| Sebastião criou a "célula matriz" da garrafa Pet |
Ele inventou uma cápsula capaz de aumentar o uso criativo das garrafas Pet - e, com isso, reduzir seus danos ao meio ambiente. A tal célula aumenta a firmeza de tudo o que é feito com esse material - como um sofá ou uma mesa, por exemplo. Trata-se de uma combinação simples entre duas garrafas plásticas – uma cortada e outra inteira - que passou a ser uma espécie de "célula matriz" dos objetos reciclados do Pet. A invenção, registrada em 1998, está cada vez mais popular. Embora nem todos conheçam o autor - o professor de Ciências Sebastião Feijó.
Morador de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, ele já ensinou a técnica em várias comunidades e empresas do Brasil. Em dezembro, foi a vez de 15 moradores de favelas da Tijuca (como Borel, Chacrinha, Formiga, Casa Branca, Salgueiro e Alto da Boa Vista) aprenderem a transformar o Pet em pufs, poltronas, sofás e até em árvore de Natal.
Mais do que um artista plástico, como passou a ser conhecido, Sebastião é um militante da causa ambiental. "Sempre que ensino o trabalho de reciclagem para as pessoas faço questão de perguntar o que elas acabaram de aprender. Muito mais do que poltronas ou pufs, quero que tenham consciência de que estão dando um destino criativo e muito mais saudável às garrafas", diz ele.
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| Equipe do Centro Comunitário na Tijuca |
Segundo Sebastião, sua invenção foi devidamente registrada no Instituto Nacional de Patentes Industriais (INPI), em 1998. O encaixe da cápsula, explica, garante a firmeza e a eficiência do material produzido. "Tem muita gente que utiliza a técnica e diz que a inventou, quando na verdade fui eu. Mas não me preocupo em ganhar dinheiro com isso. Prefiro que as pessoas se importem com o valor ambiental. Só quando abusam e nem mencionam o meu nome, acho injusto e ilegal", diz.
De professor à artista
Por conta de seu trabalho, Sebastião ganhou em 2001 um atelier no Galpão de Artes Recicladas da Comlurb, na Gávea, onde regularmente expõe suas peças e oferece oficinas de reciclagem. "Passei a ser considerado artista", diz ele, divertindo-se. As aulas custam R$ 50 e podem ser parceladas. Mas ele também ensina quem não tem condições de pagar. "Já dei aula para alunos encaminhados pelas prefeituras, vindos de instituições de menores", conta.
Tanto talento levou o artista a ser convidado para ensinar a técnica no Centro Comunitário, na Tijuca – que funciona no mesmo espaço físico da Câmara Comunitária. Sebastião passou o mês dezembro visitando diariamente o local para ensinar o segredo de sua cápsula aos 15 moradores de baixa renda.
Entre eles, Valtair Ferreira Rosa, 38 anos, da comunidade Alto da Boa Vista. "Já juntei 6 mil e 500 garrafas para trazer para cá. Meu vizinho guarda no terreno dele para mim. Acho o trabalho importante por causa do meio ambiente", diz ele, apontando para o monte de garrafas reunidas no local. Valtair conta que muitos se envolvem na ação exclusivamente para ganhar um trocadinho. "Dou R$ 1 e os vizinhos me entregam algumas garrafas. Às vezes eles precisam de um trocadinho para ajudar em casa e tomar uma cervejinha", conta.
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| Valtair recolhe garrafas com vizinhos |
No local as garrafas são lavadas, cloradas, cortadas, acopladas e agrupadas já na forma do produto. Depois são colados o papelão, a espuma e o revestimento. O hoje instrutor Washington Feijó, 55 anos, morador do Bairro Bom Pastor, em Villar dos Telles, já passou pela aprendizagem da técnica. Irmão de Sebastião, ele hoje faz parte do trio que acompanha o artista em suas incursões.
"Já aprendi muita coisa", contava Washington, enquanto fazia uma guirlanda de Natal. No Centro Comunitário, que sobrevive de doações, as garrafas são compradas de catadores de lixo ou recebidas de instituições de caridade e escolas. Eles já conseguiram reuinir, em apenas 15 dias, 6 mil garrafas.
De acordo com o presidente do Centro e contador aposentado Luiz Castilho, o preço da compra compensa para os catadores e a doação das garrafas é uma boa para as instituições – que receberão, em troca, peças feitas de Pet.
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| Washington é instrutor do projeto |
"Compramos Pet e papelão, de cerca de doze catadores das comunidades, por R$ 0,25 a 0,30 o quilo. Normalmente, são pagos R$ 0,20 no mercado pelo quilo. Há escolas e uma série de comunidades inscritas para receber e estamos planejando palestras que serão dadas pelo Sebastião nesses locais", conta ele. O Centro doou 20 árvores de Natal para um orfanato. Até agora, sete escolas estão inscritas para receber os móveis.
A origem da cápsula
Sebastião começou a escrever sua história como o pai da célula de Pet ainda na escola. Não em seus tempos de criança, mas como professor de Ciências. Há seis anos, quando pela primeira vez encaixou duas garrafas dando origem à "fórmula", o artista não poderia imaginar a parcela de revolução que seu simples gesto continha.
Ele se preparava para apresentar, com a sua turma, um trabalho para a Semana do Meio Ambiente, como parte do programa Tudo ao Mesmo Tempo na Praça, da secretaria municipal de Educação. "Como a escola sofria com a enchente do rio Acari, e uma das grandes vilãs eram as garrafas Pet, pensei em fazer um trabalho com as garrafas", conta.
Assim, meio por acaso, enquanto manuseava a matéria-prima do seu trabalho, Sebastião acabou descobrindo a cápsula. "Minha idéia era fazer alguma coisa com as garrafas para que não retornassem ao lixo. Chamo esse formato de célula porque a partir dele é possível fazer qualquer outra forma. A partir desse dia, eu disparei. Comecei a fazer de tudo, até chapéu", lembra.
Hortas geométricas
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| Sérgio e Vagner produzem pufs e poltronas |
Sebastião também desenvolveu com os alunos os projetos de hortas geométricas e sobre "a tridimensionalidade da aprendizagem". O primeiro consiste em ensinar matemática a partir do plantio e cultivo de hortas feitas pelos próprios alunos. As crianças plantavam, interagiam com a natureza e aprendiam geometria. "Elas plantavam de maneira a desenhar formas geométricas no chão. Em cada ângulo de um triângulo, por exemplo, cultivavam três pés de couve. Assim, multiplicando o número de plantas dos vértices de qualquer forma, elas aprendiam a tabuada", explica.
A criatividade não pára por aí. A partir da teoria da "tridimensionalidade da aprendizagem", que Sebastião está desenvolvendo, ele defende que todo aprendizado deve ser formado a partir de uma experiência prática, de uma interação com o meio ambiente.
"O homem se distanciou da relação que mantinha com as coisas, mas o conhecimento vem daí, dessa relação. O ensino tradicional recorre muito à memorização, à imaginação, à abstração, mas deixa de lado a experiência prática. Então, como resultado disso, você percebe que o melhor aluno da escola nem sempre é o melhor profissional. Muitas vezes, ocorre o contrário", observa.
Toda essa capacidade reflexiva levou Sebastião a ser diretor, e hoje coordenador pedagógico, da Escola Municipal Erico Veríssimo, em Acari. Ele diz já ter testado a teoria da aprendizagem com uma professora da escola. "Ela estava querendo pedir demissão porque não conseguia a atenção dos alunos e hoje é uma das melhores professoras. Em cada prática é possível aprender sobre todas as matérias", prega.
De Vigário Geral para o Brasil
Contratado pela ONG Onda Azul, ele partiu para ensinar a técnica da cápsula da reciclagem em Vigário Geral, em 1999. "Conseguimos botar mais de mil móveis doados nas casas de moradores da comunidade. Durante um ano estive ensinando a técnica que até hoje é utilizada pela ONG", conta.
Da experiência em comunidades de baixa renda, ele também coleciona sua porção de aprendizado. "Trabalhei no Ceará como voluntário em uma comunidade muito carente, Jaguaruãna. Passei as informações para o pessoal de lá e, no ano seguinte, quando voltei fiquei emocionado de ver que tinham criado mais peças, e incorporado mais gente ao trabalho", conta.
No que puder ajudar para a causa da reciclagem, Sebastião ajuda. "Me engajo nos projetos que possam gerar renda para quem trabalha e contribuir para preservação do meio ambiente".
Com sua atuação, ele pode dar uma vida melhor para os filhos e para sua mãe. "Meus pais queriam muito que eu e meus irmãos conseguíssemos um trabalho, uma situação melhor na vida, porque a gente tinha uma condição financeira baixa. Sempre prezamos o estudo. Sei que minha mãe se orgulha do filho dela", diz ele, para quem a consciência ambiental está se fortalecendo. "Na época em que criei a cápsula, jogavam muitas garrafas pelas ruas. Hoje em dia vejo bem menos", observa.
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