Serra pede Misericórdia
04/08/2006 -
Cíntia Cruz e Erica Cristina
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| Voluntários sobem a Serra da Misericórdia para o mutirão de reflorestamento |
A última área verde da Leopoldina, situada em Inhaúma, Zona Norte do Rio, não poderia ter nome mais apropriado: Serra da Misericórdia. Queimadas, desmatamentos e poluição são quase um clamor de piedade da natureza. Pedido ouvido por integrantes da Ong Verdejar, que desde fevereiro deste ano, realizam mutirões de reflorestamento na localidade.
A organização conta com a ajuda de moradores de comunidades próximas à região, universitários e visitantes. Os projetos da instituição esbarram em diversos interesses, mas seus membros conseguem, com todos os problemas, promover ações de conscientização e preservação do local. A região compreende 27 bairros e cinco conjuntos de favelas.
Foi da própria redondeza que surgiu o idealizador da Verdejar, fundada em 1997, ano em que Luiz Poeta começou a pensar em transformar a serra em área de proteção ambiental e parque ecológico. Na época, tinha algumas mudas em casa e, uma noite, resolveu ir plantá-las no lugar, onde tantas vezes nos tempos de criança havia brincado. "Um colega estava bebendo, me encontrou e perguntou o que iria fazer aquela hora. Respondi que estava indo plantar. Ele largou cerveja, pegou o carrinho de mão e fomos plantando as primeiras mudas", conta como começou a primeira formação da Ong.
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| Luiz Poeta, idealizador do Verdejar |
Dos pioneiros, só ficou Poeta, mas o grupo foi renovado com outros membros que entraram em 1999 e estão até hoje. É o caso de Edson Gomes, que explica o propósito do mutirão de reflorestamento. "O mutirão é feito para que possamos conter os constantes incêndios na região. Retiramos o capim, que faz o fogo se alastrar mais facilmente, e damos prioridade ao plantio de espécies nativas da região".
Após a capina é feita uma composteira, que consiste em um método de abafar e irrigar o mato. Depois deste processo, ele é transformado em adubo, utilizado no horto da comunidade, que é o cultivo de mudas para a venda. Os produtos da horta também são comercializados, ajudando na manutenção das atividades da Ong. A Verdejar tem ainda o apoio financeiro de alguns comerciantes e industriais associados, que pagam mensalidade.
Jennifer Ly veio da Califórnia, onde estuda Agricultura Sustentável, para fazer intercâmbio na PUC-Rio e participou do terceiro mutirão, que aconteceu no final de julho. A universitária conheceu a iniciativa através de suas pesquisas sobre o tema. Ela acredita que a idéia da horta dentro da comunidade é indispensável. " Acho que a Ong é importante para a idéia de agricultura na cidade, ou seja, a introdução da agricultura familiar. É fundamental a independência da comunidade para produzir seus alimentos", analisa.
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| Reinaldo previne moradores sobre incêndios |
Mesmo com estas conquistas, as queimadas ainda ameaçam a Serra da Misericórdia. Geralmente elas são causadas por visitantes desinformados, pessoas que soltam balões ou fazem manejo inadequado de gado. O músico Reinaldo Gaia sempre atuou na preservação da serra. Morador do Engenho da Rainha, Zona Norte, tenta conscientizar as pessoas do perigo de incêndios: "Existem muitos religiosos que sobem a serra para acender velas. Digo a eles que Deus não gostaria de vê-los destruindo a natureza", relata.
Mutirão de boa vontade
No último encontro, alguns voluntários chegaram no sábado à noite, montaram suas barracas e, pela manhã, começaram as atividades. Todos pegam na enxada, independentemente do sexo. Mas na cozinha são elas que mandam. As mulheres da comunidade, da Ong e as visitantes começaram a preparar a feijoada desde cedo.
Enquanto o almoço não chega, Eliane Mansour faz um café com um cheiro irresistível. Ela conheceu Poeta num evento de Agro-ecologia, no município de Nova Iguaçu, na Baixada, e foi convidada para participar do mutirão. A colaboradora trabalha na Feira Ecológica Pró-Terra, em Teresópolis, onde vende os alimentos que ela mesma planta e colhe. O café que preparava havia sido plantado, colhido, socado e torrado por ela. "Apesar da violência e de tudo o que contam, fiquei encantada com isso aqui", revela com orgulho.
Por um outro reflorestamento
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| Eliane prepara o café para os voluntários |
Segundo Luiz Poeta, que praticamente se mudou para um acampamento na Serra, a Ong reivindica um reflorestamento feito pela Prefeitura, apesar das críticas que dirigem ao trabalho do governo municipal:
"O nosso reflorestamento é um contraponto ao da Prefeitura que planta muita espécie exótica, que não é da Mata Atlântica. Entretanto, lutamos para que a Prefeitura traga o seu reflorestamento que, mesmo com seus problemas técnicos, é uma coisa que traz trabalho e renda para a comunidade", opina.
Em 2000, quando a Serra da Misericórdia foi considerada Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana (Aparu) , houve um reflorestamento. Mas com a mudança na gestão da Prefeitura, a atividade foi parada. O prazo da Aparu, que dura cinco anos, venceu em 2005, sem que o decreto fosse regulamentado. Para tentar reverter a situação, a Verdejar realizou um seminário reunindo as associações de moradores de toda a região. "Estamos com a primeira reunião marcada após o seminário para ver se criamos um conselho gestor e regulamentamos essa Aparu de uma vez por todas. Porque no nosso cotidiano ela, felizmente, ainda existe", assinala Poeta.
Outras iniciativas
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| As mudas ficam ao lado do acampamento |
Além do reflorestamento, a Verdejar tem uma série de iniciativas e parcerias. As mais próximas da comunidade são medidas práticas que visam a amenizar o desgaste ambiental da região. Uma delas é a barraginha, uma espécie de "injeção no lençol freático". O fundador da Ong explica as etapas do processo. "A água fica acumulada em buracos, vai para o subsolo e, então, espirra naturalmente na nascente, fortalecendo-a".
Como Poeta fica direto na Serra, em função dos projetos do horto e da horta, ele está se adaptando ao acampamento. No que diz respeito ao esgoto, a solução foi o banheiro ecológico. No vaso sanitário, em vez de água, serragem. "As fezes são misturadas com serragem, folhas secas e depois viram adubo. Nem mau cheiro apresenta. Mas não utilizamos esse material para plantas alimentícias, somente para as ornamentais", afirma . Há ainda outras adaptações a fazer. Para isso, a Ong está iniciando uma parceria com estudiosos da Universidade Rural do Rio de Janeiro para fazer ecoconstruções.
Mas há práticas que já são constantes. Duas vezes por ano, a Verdejar faz o Domingo Ecológico. Sempre no Dia da Árvore e na Semana do Meio Ambiente, o projeto realiza oficinas de educação ambiental em escolas públicas da região e organiza atividades ecológicas e culturais com a comunidade. A comemoração traz como pano de fundo as reivindicações pela regulamentação da Aparu e pela Paralisação das Pedreiras de Inhaúma para a construção do Parque Ecológico. "Fazemos esse evento desde 98 e o próximo será em setembro", convida Luiz Poeta.
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