Publicada em: 07/10/2005 às 19:04 |
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Pescador de garrafa
O mar não está pra peixe na Baía de Guanabara. Os tempos de água cristalina e muitos frutos do mar parecem só existir na memória de gente como o pescador Carlos Borges, morador do Complexo da Maré (Zona Norte carioca) há 40 anos. Há sete anos desempregado, Carlos sobrevive há quatro da pesca de... garrafa PET. Ele chegou a catar 100 quilos de PET por dia. Hoje, por conta da concorrência, só consegue pescar 20 quilos. Com seu barquinho, o pescador costuma "rodar o mar todo" - passa perto da cidade de Niterói, às margens da baía, costeia a Ilha do Fundão, a estrada da Ilha do Governador, e sobretudo pelos 'valões' que dão acesso às comunidades do Complexo da Maré, como o Canal do Cunha (Conjunto Esperança) e o rio Ramos (entre as favelas Parque União e Rubens Vaz).
Às vezes, o experiente pescador, com 25 anos de mar, também se mete em confusão. Certo dia, quando estava passando por um de seus tradicionais caminhos - um canal que cruza a Avenida Brasil e tem largura equivalente a quatro pistas da estrada -, Carlos perdeu a noção do tempo. "A maré encheu e o barco, cheio de garrafa, não passava mais. Fui obrigado a esperar a maré descer. Tem que ter coragem, meu filho!", diz ele. O presente inesperado achado na baía veio de pessoas que vivem na beirada do valão. Segundo Carlos, ao deixar secar os utensílios no muro, o vento derruba ou alguém esbarra, e as panelas vão todas para a água.
Certa vez, no valão da favela Rubens Vaz, Carlos presenciou um rapaz jogando uma grande quantidade de entulho no valão. “Eu reclamei com ele, e comentei: se o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) te pega fazendo isso, você ia pagar uma multa e ainda ia ter que retirar todo o lixo que jogou no valão. Sem falar que você está matando peixes e caranguejos", conta. No mesmo valão, dia desses, uma moradora que o viu passar com o barco pediu a Carlos que ele desse uma olhada no cano que deságua dentro do valão, que estava entupido. "Quando observei, o cano estava cheio de lama e lixo, evitando que a água do esgoto sanitário descesse. Pedi que ela me emprestasse um ferro, enfiei no cano de uma só uma vez, e acabou o entupimento", lembra. A vizinha ficou tão grata que ofereceu R$ 5 em pagamento pelo serviço. "Ela ficou minha amiga e eu pedi para que não jogasse lixo no valão. Até hoje ela separa o lixo dela e os das vizinhas para mim". O problema do esgoto caindo na baía, porém, é mais complicado de ser resolvido por uma única pessoa, lamenta o pescador. Ele agora está tentando montar uma pequena colônia de pescadores para dez barcos de pequeno porte. O lugar escolhido fica embaixo da ponte, próximo ao Batalhão da Maré.
Seu Carlos ainda tira um tempo para fazer comida, dar banho e levar as crianças para a escola. Às vezes, até leva os pequeninos para o mar, pois a esposa, Dona Marlene, de 46 anos, trabalha fora. O casal tem quatro filhos, o mais novo de 5, o mais velho de 23 anos. Lucas, de 7 anos, contou que quando crescer quer ser "que nem o papai". E quando o pai morrer, ele vai assumir seu lugar, catando PET e limpando o mar. Nem tudo na vida de Carlos, porém, é bom exemplo. Uma de suas maiores alegrias aconteceu num domingo. Ele não tinha "uma prata no bolso", quando saiu de casa por volta das 7h da manhã. Não tinha dinheiro sequer para comprar um pão. "De repente, avistei um saco plástico boiando. Como é de costume, peguei e para minha sorte, o saco estava premiado com R$ 100: duas notas de R$ 50 reais novinhas. Fiquei doido!", lembra. Continuou a trabalhar, todo feliz. Ao chegar em casa, deu R$ 50 para a mulher comprar carne e pão. A outra metade guardou para ajudar a pagar as contas. No dia seguinte, no mesmo lugar, uma mulher perguntou ao vê-lo: 'Moço, o senhor não achou um saco preto com R$ 100?’. "Respondi no ato: 'não!’. Depois fiquei pensando: não roubei, achei. Também já perdi R$ 30 e ninguém veio me devolver.” E ficou com o dinheiro. |
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