Publicada em: 26/05/2005 às 13:56
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Rir sobre o óleo derramado
Begha Lindemberg e Vilma Homero

* e Vilma Homero, da Redação

Jossuel troca óleo velho por produtos de limpeza
Jossuel troca óleo velho por produtos de limpeza

O destino da gordura usada em frituras de várias casas e restaurantes do Complexo da Maré mudou. Ao invés de simplesmente despejar o óleo usado no ralo, muitos moradores estão descobrindo o benefício de dar um outro fim a esses restos, que agora vão para as mãos de uma indústria de limpeza. Todo mundo sai ganhando.

Além de reduzir os problemas com entupimento de caixas de esgoto, os moradores ainda recebem alimentos em troca do 'lixo desviado'. Por tabela, ganha também a poluída Baía de Guanabara, onde todos esses resíduos costumam parar.

“A idéia é trocarmos esse óleo por alimentos. Para o comércio - e já contamos com restaurantes que geram 200 litros por quinzena -, o retorno será em produtos de limpeza, como caixas de detergente e panos de chão”, diz Jossuel Leandro de Souza, um carioca de 31 anos, nascido e criado na Vila do Pinheiro.

Das residências ou restaurantes, a gordura agora percorre um caminho diferente: é recolhida em recipientes espalhados pela Vila do Pinheiro, Praia de Ramos e Roquete Pinto, e depois armazenada num espaço que, por enquanto, fica na casa de Jossuel. É ali que a empresa – uma intermediária que revende o material para a fábrica União Fabril - manda buscar as bombonas, todo mês.

Entre a Praia de Ramos e a Vila do Pinheiro, comunidades do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, 200 famílias já aderiram. Só no entorno do Piscinão de Ramos, são 40 recipientes - bombonas de 20 litros - destinados a recolher a gordura usada.

18 latas de óleo por semana

Tia Preta: retorno para as seis latas usadas
Tia Preta: retorno para as seis latas usadas

É de Jossuel a iniciativa, levada adiante em parceria com a associação de moradores da Praia de Ramos. “Em apenas um mês de trabalho, o recolhimento dos restos de óleo gerou quatro empregos para o pessoal daqui”, anima-se.

A estimativa é de que nas próximas coletas o volume de óleo chegue a 4 mil litros por mês.Cada litro é vendido a R$ 0,40. Quando chega à indústria, serve como matéria-prima para a produção de sabão, sabonete e diversos produtos do gênero.

O dinheiro apurado será todo dividido: pagará o pessoal responsável pela coleta – R$ 20 a diária -, custeará os alimentos distribuídos para as famílias que contribuíram e material para a associação de moradores, como tinta para impressora, papel ofício, cadernos e canetas. O que sobra fica para o próprio Jossuel.

Foi ele quem recolheu sozinho a remessa inicial, nos primeiros 15, 20 dias. “Tirei R$ 200. O que para mim, com certeza, foi uma coisa boa”, diz. Para Adeir Laurindo da Silva, 51 anos, a Tia Preta, também foi ótimo. Há dois anos, ela prepara e vende frango a passarinho, peixe e batata frita. Com tanta fritura, a sobra de gordura usada é enorme.

“Quando é tempo de sol, costumo gastar mais de seis latas de óleo a cada final de semana. Antes, eu despejava o resto em saco plástico e deixava para o lixeiro levar”, explica. Agora, o que ia para o lixo vai começar a render à barraqueira produtos de limpeza.

“Essa troca foi uma ótima idéia”, diz, satisfeita.Mais conscienteNo Ponto Big Fritas Empadas, no calçadão do Piscinão, a poucos metros da Tia Preta, Jorge Salles Oliveira, 35 anos, gasta bem mais. Os peixes que frita lhe consomem de 15 a 18 latas de óleo por semana. “Eu costumava jogar tudo no ralo de águas pluviais ali mesmo do Piscinão. Agora, vai tudo direto para a bombona. Hoje estou mais consciente de que estou fazendo o certo”, diz.

Maria Aparecida agora evita jogar na pia
Maria Aparecida agora evita jogar na pia

Jossuel resolveu correr atrás ao observar, numa mesa de restaurante de Bonsucesso, alguém recolhendo o óleo usado na cozinha. “Procurei a pessoa, que a princípio não quis falar o que era, mas deixou comigo um telefone”, lembra. Ele ligou e também não foi bem atendido. “Vi então que os pontos de coleta de óleo são disputados por intermediários”, diz.

Na favela, porém, a inciativa de Jossuel por enquanto é não só pioneira, como única.A diferença fundamental que Jossuel vê entre ele e outros coletores é a consciência. “Para eles, não importa saber se esse óleo contribui para despoluir a região. Para mim, a causa ambiental tem importância. Por isso, levei a idéia para a associação. Para mim, o que vale é, além de conscientizar, fazer com que tudo se reverta em benefício para a própria comunidade”, diz.

Que o diga Maria Aparecida, 48 anos e dona de uma pensão na Rua Gerson Ferreira, na Praia de Ramos. “Perdi a conta de quantas vezes derramei óleo com água morna e detergente na pia. Hoje, vejo que essa iniciativa está sendo ótima. Só assim evita entupimentos dos esgotos nas ruas da nossa comunidade. E melhor ainda, ensina as pessoas a ter consciência de que nem tudo se deve jogar por aí. Quem sabe no futuro conseguiremos despoluir a nossa Praia de Ramos, tão abandonada?", sonha.

De grande poluidora a exemplo

Mais do que meramente recolher óleo usado, Jossuel também está levando a idéia às escolas, creches e igrejas locais. “Além do que é usado na merenda, quero falar com os pais dos alunos. Sabemos que várias famílias na comunidade trabalham com salgados e jogam a gordura fora. Queremos chegar até elas, porque quem trabalha com rede de esgoto é que sofre”, diz.

Ele sabe bem do que fala. Supervisor do projeto Amigos da Comunidade, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos), na Praia de Ramos e Roquete Pinto, desde 2004, nestes dez meses Jossuel percebeu que muito óleo doméstico era jogado direto nos esgotos. O que provocava muito entupimento.

Esfriado e em contato com a água, o óleo se transforma numa pasta gordurosa, obstruindo o interior dos canos. Sem contar com a dificuldade de limpeza das caixas de esgoto nas duas comunidades.

O óleo jogado nas caixas de esgoto (E) se transforma em placa de gordura (D)
O óleo jogado nas caixas de esgoto (E) se transforma em placa de gordura (D)

“Como a comunidade é formada por becos, tudo se torna ainda mais difícil, já que o equipamento de limpeza não tem como chegar até certas áreas, só passa pelas vias principais de acesso da favela, onde o caminhão pode passar: Rua Gerson Ferreira, na Praia de Ramos, Rua Ouricuri, Jubal Lima e Vila Sampaio, localizada na Roquete Pinto e Avenida Guanabara, em frente ao Piscinão, ou, a chamada Vieira Souto dos Pobres. E com isso o trabalho precisa ser feito manualmente e é mais demorado”, conta.

Agora, Jossuel comemora os resultados desses primeiros dias de trabalho. “Em apenas 15 dias de recolhimento, a limpeza já ficou bem melhor nas caixas de esgoto da área em que estamos fazendo coleta. Conseguimos desobstruir caixas que vínhamos lutando há três meses para desentupir. Agora dá para jogar um produto para reduzir os restos de gordura”, explica Jossuel. Para provar o que diz, ele até fez fotos de “antes” e “depois”.

“A Maré já é discriminada por ser favela. É sempre vista como uma grande poluidora. Mais um motivo para incluir a comunidade nesta iniciativa. É mais gratificante ainda que esse dinheiro seja revertido para o coletivo”, fala. Na sua opinião, quem contribui ajuda de duas formas. Não poluindo e gerando renda. “Digo com muito otimismo, será um grande passo e vitória para todos na preservação do meio ambiente", acredita. 


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